sexta-feira, dezembro 07, 2007

Guardiã feroz de todos os possíveis


Foto de Maria Pato e Thomas van Keulen (9 e 7 anos, respectivamente)

Finalmente de novo sou eu, por dentro do território do amor tão lentamente reconquistado. Olho para a nossa família e já não a sinto amputada. Intactos, à nossa volta, os sítios onde fomos felizes. E tudo parece de novo possível: a alegria essencial, as noites de gratidão por estarmos vivos, quando acordamos e tocamos ao de leve quem amamos, numa festejo absoluto da pertença. Recordo o passado para ti, que eras demasiado pequeno para te lembrares, conservo a memória da felicidade, do começo da tua vida, do teu pai, guardiã feroz de todos os possíveis. Nada me podia dar mais prazer do que fazê-lo; é a prenda que te dou em troca do que perdemos. Fui órfã durante demasiado tempo. É altura de celebrar a vida. Ver-te crescer, o milagre repetido a cada dia, amar-te sem restrição, com a consciência da vida como uma finitude, único lugar para cumprirmos a felicidade que em sorte nos coube. Mas não quero escrever mais. Na escrita ficam os traços da tristeza, pelo menos na minha. É lá fora, para lá dos muros do pensamento, no sítio que as emoções habitam, que a vida se encontra inteira. É aí que quero estar, contigo.

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quarta-feira, outubro 17, 2007

Não se passa nada


Nem valia a pena perguntar, que ela não respondia. Fechada num mutismo surdo, sentava-se ali muitas vezes. Nos dias de chuva, espreitava através da janela, afastando ligeiramente o cortinado. A respiração embaciava a vidraça, mas ela parecia não se importar. Ficava ali horas a fio, olhinhos fixos vá-se lá saber onde. Por vezes saía à rua. Ia ao pão, ou às batatas. Passinho miúdo rua abaixo, olhos postos na calçada. Mal a viam passar. Só quando deixou de se pôr à janela e de embaciar a vidraça deram por ela. Ou melhor, pela falta dela. Tocaram-lhe à porta, quiseram saber. Sentada no cadeira, mãos postas no regaço, a todos dava a mesma resposta: não se passa nada. Mas eles bem sabiam que algo se passava. E perguntavam, mas ela respondia: não se passa nada. Um dia, com maior insistência, quiseram ficar, acompanhá-la ao jantar. Levantou-se a custo. Atrás dela, um cheiro a rosas velhas manchou o ar. Quando entraram na cozinha, a panela fervia sem dono. Nunca mais a voltaram a encontrar.

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segunda-feira, junho 11, 2007

SMS

Devolvo-te as abreviaturas. Quero amor por extenso. Até mais.

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segunda-feira, maio 14, 2007

Depois do fim


Amanhã vou nadar. Procuro nas páginas amarelas uma escola de condução e inscrevo-me. Falo com a Cristina e proponho projectos conjuntos. Telefono à Soraya e agencio-me. Envio o currículo para aquela empresa. Começo a fazer meditação. Agarro todos os pedaços para não caírem. Quase os perdi, mais que uma vez, mas em tudo me renovo, em tudo acabo por encontrar a vontade de me renovar. A ver se não me esqueço.

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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Anjo



Dava tudo para estar outra vez contigo. Debaixo do céu violeta de Lisboa ou entre as nuvens de Amsterdam. Ou em qualquer outro sítio, já que falamos nisso. Naquele dia, as tuas asas abriram-se e não pude acompanhar o teu vôo. Meu amor.

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quarta-feira, maio 03, 2006

Leitura


Johannes Vermeer 1662-63
Rijksmuseum, Amsterdam

Estava cansada. Deixou cair as chaves na bancada da cozinha e sentou-se. O mais certo era não se lembrar depois onde elas estavam. Mas agora tudo parecia demais para ser feito. A casa estava tranquila, antes do regresso dos miúdos, do jantar, dos banhos a dar. Era tão soalheira, aquela casa. Até no corredor, longe de todas as janelas, o sol arranjava maneira de entrar. Pegou no livro e deixou-se ficar. Só mais um bocadinho. Daqui a pouco ainda era tempo para tudo começar.

(Antonio Tabucchi "Afirma Pereira" Clarice Lispector "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" Eça de Queiroz "Contos"
Gabriel García Marquez "Amor nos tempos de cólera" Italo Calvino "Cosmicómicas" José Saramago "Ensaio sobre a cegueira" Lawrence Durrell "Justine")

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terça-feira, fevereiro 14, 2006

Encontro



Ali pousada, a tua presença era irresistível, leve como um pássaro prestes a levantar voo. Abracei-te sem medo e logo em ti tudo se aninhou. Partimos pelas ruas largas em direcção ao rio. Sabíamos o sorriso na voz um do outro, por isso não precisávamos de nos olhar. Tudo então era leve e grande como o mundo precisasse para se cumprir melhor.

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