Guardiã feroz de todos os possíveis
Foto de Maria Pato e Thomas van Keulen (9 e 7 anos, respectivamente)
Finalmente de novo sou eu, por dentro do território do amor tão lentamente reconquistado. Olho para a nossa família e já não a sinto amputada. Intactos, à nossa volta, os sítios onde fomos felizes. E tudo parece de novo possível: a alegria essencial, as noites de gratidão por estarmos vivos, quando acordamos e tocamos ao de leve quem amamos, numa festejo absoluto da pertença. Recordo o passado para ti, que eras demasiado pequeno para te lembrares, conservo a memória da felicidade, do começo da tua vida, do teu pai, guardiã feroz de todos os possíveis. Nada me podia dar mais prazer do que fazê-lo; é a prenda que te dou em troca do que perdemos. Fui órfã durante demasiado tempo. É altura de celebrar a vida. Ver-te crescer, o milagre repetido a cada dia, amar-te sem restrição, com a consciência da vida como uma finitude, único lugar para cumprirmos a felicidade que em sorte nos coube. Mas não quero escrever mais. Na escrita ficam os traços da tristeza, pelo menos na minha. É lá fora, para lá dos muros do pensamento, no sítio que as emoções habitam, que a vida se encontra inteira. É aí que quero estar, contigo.
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